O fermento que sou

 

 

Muitos serão os que ainda se lembram de fazer ou de ver fazer o pão (broa) na própria casa. Broa simples ou com mistura (milho, trigo e centeio) era cozido para uns quinze dias e em muitos casos era o único sustento em casa do agricultor.

Dentro da masseira, uma espécie de tabuleiro, juntava-se água quente à farinha e amassava-se à força de braços e mãos. A esta mistura, era acrescentado o fermento, chamado crescente (massa lêveda), que é um pouco de massa guardada da anterior amassadura. Desta forma, sempre que se cozia uma fornada de broa, era guardado, numa tigela, um pouco de massa para servir de crescente na vez seguinte. Este fermento era indispensável à levedura da massa.

Depois de preparada a massa, fazia-se sobre ela uma cruz em baixo relevo, com o topo inferior da mão, cobria-se e esperava-se o tempo necessário para a massa levedar. Em forma de oração dizia-se, entre outras, a seguinte fórmula: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo: S. Vicente te acrescente, S. Mamede te levede e S. João te faça pão. Amen.

Poderia ainda falar das famosas “Sopas de Cavalo Cansado”, mas não o farei. Aquele que tiver curiosidade em saber do que se trata, que investigue e se possível, prove!

Ao olhar para todo este processo de preparação do pão, o meu pensamento fixa-se no fermento. Apesar da sua pequenez, comparado com a quantidade de massa, é ele que a leveda toda. Este fenómeno quase mágico, é portador de uma profunda simbologia com a qual temos muito que aprender e transpor para a nossa vida.

A força que o fermento tem deve ser para nós sinal de esperança. Por vezes desejamos que tudo aconteça depressa, custa-nos esperar e atormenta-nos o silêncio e a incerteza do que pode acontecer. Temos medo de que o esforço empregado tenha sido em vão. É preciso, porém, acreditar que tudo tem que acontecer por nós, pela nossa iniciativa e com a nossa decisão.

Faz-nos falta o silêncio da massa. Faz-nos falta acreditar que, apesar dos nossos esforços parecerem pequenos como a quantidade de fermento, eles têm uma grande capacidade de transformação. Já pensaste que podes colocar um bocadinho de fermento nas tuas relações, no grupo de jovens, na família, na escola, na catequese, no trabalho, no Facebook…?

No Evangelho de S. Mateus (13, 33), é o próprio Jesus que compara o reino de Deus ao fermento: «O Reino do Céu é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que tudo fique fermentado».

Jesus utiliza esta parábola para nos indicar a natureza transformadora do seu Reino, a capacidade que a mensagem cristã tem de engrandecer o homem, no mundo onde ele actua. Como cristãos devemos sentir que é urgente introduzir o fermento do Evangelho de Cristo na vida e nos valores que nos rodeiam.

O Concílio Ecuménico Vaticano II, na Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, no número 40, explica que a Igreja é chamada a actuar «como fermento e como a alma da sociedade [humana], que deve renovar-se em Cristo e transformar-se na família de Deus».

Para ter bom pão não serve simplesmente outro pão mesmo que seja fresco; é necessário o fermento que, quando se coloca na farinha, faz a massa crescer. É que o fermento transporta a força da vida.

Também nós somos chamados a ser fermento, a testemunhar, com os nossos actos e acções, com o nosso exemplo, que pertencemos a Cristo e à sua Igreja. Como refere o catecismo da Igreja Católica no número 2832: «Tal como o fermento na massa, a novidade do Reino deve levedar a terra com o Espírito de Cristo. Há-de manifestar-se pela instauração da justiça nas relações pessoais e sociais, económicas e internacionais, sem nunca esquecer que não há nenhuma estrutura justa sem homens que queiram ser justos».

São João Crisóstomo ia mais longe ao afirmar que «nada mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos outros... Cada um de nós tem a possibilidade de ajudar o próximo, se ele quiser cumprir os seus deveres... Se o fermento misturado à farinha não fizer crescer a massa, poderemos considerá-lo fermento verdadeiro? Se o perfume não espalhar a sua fragrância, ainda o chamaremos perfume? Não digas que és incapaz de influenciar os outros. Se fores cristão, é impossível que não o faças».

Pelo exercício da oração tornamo-nos fermento para o mundo e instrumento para levedar a massa nas humildes e variadas situações da nossa vida. Pela oração somos capazes de introduzir na terra o fermento de testemunho de vida cristã capaz de transformar os corações, os pensamentos, as atitudes. Nas palavras do Beato João Paulo II, «quando a oração, feita por um apaixonado amor a Deus, testemunha estreita amizade divina e faz que ela cresça neste amor até se tornar como a fusão de um só amor – a tal ponto de a criatura entregar totalmente a sua vontade ao Amigo divino – então esta amizade torna-se fermento apostólico, motivo de alegria para toda a Igreja e para a humanidade inteira, como uma voz muito poderosa que penetra no Coração divino para redundar em benefício de todo o seu Povo».

De facto é profundo e rico o ensinamento que podemos aprender do fermento. Tenhamo-lo presente no nosso dia-a-dia e veremos, admirados, as muitas e boas propriedades que ele possui.

O Menino Jesus nos ajude a ser fermento de bem na massa de cada dia.

Menino Jesus de Praga, sê jovem na nossa juventude.

jmjp@santuariomeninojesus.org

(Mensageiro nº 173 Nov-Dez 2011)