Há expressões que, não sendo portuguesas, soam bem a qualquer um. De tanto as ouvirmos já nem nos preocupamos com a sua origem ou significado. Escutamo-las com prazer e repetimo-las. Mesmo quem não sabe falar a língua em que estão escritas, de tanto as dizer acaba por pronunciá-las bem.
É o que está a acontecer com estas duas palavras low cost, que são puro inglesismo (anglicismo). Trata-se de uma expressão construída a partir do inglês, e que está a ser integrada na nossa língua. A junção destas duas palavras deu origem àquilo que chamamos “baixo custo”, que começou por ser um conceito associado às companhias aéreas, mas rapidamente se espalhou a vários segmentos empresariais, como a restauração, os seguros, os cabeleireiros e ultimamente a todas as empresas desejosas de aumentar as suas vendas. No que se refere a viajar de avião, o conceito low cost funciona de forma simples: os voos têm como destino aeroportos secundários, em horários pouco lotados e com o pagamento à parte de todos os extras, incluindo as refeições. O sucesso que se conseguiu no ar desceu à terra e, de mansinho, entrou no nosso país – carente do “barato” – nas asas de hotéis, ginásios, clínicas e muitas empresas que deitaram mãos ao marketing e conseguiram baixar os preços de uma forma apelativa.
Desde postos de combustíveis a livros de receitas, em tudo há um pouco de low cost. Mas será que tudo isto são rosas? Ou estas rosas escondem espinhos? Alguns especialistas dizem que o sistema pode ser muito prejudicial àquelas áreas de negócio que se adaptaram a tal conceito, por não terem nascido apoiadas neste modelo. O facto de baixarem as margens de lucro terá necessariamente de implicar a redução na qualidade, a falta de inovação e nalguns casos o encerramento.
Também nós, cristãos católicos, podemos cair na tentação de procurar na Igreja uma versão low cost do modo como vivemos a nossa fé. Oiço dizer com frequência a algumas pessoas que a Igreja tem que se adaptar ao nosso tempo; que precisa de inovar e deixar o tradicionalismo! O que se pretende com tais afirmações? Será que se procura uma versão low cost da nossa prática cristã? O facto de vivermos num tempo de grandes mudanças não implica que prescindamos dos valores éticos e morais que a doutrina da Igreja sempre nos ensinou e que são frutos de vida e de verdade, do bem para com o próximo e da alegria fraterna. A sociedade invade-nos com múltiplas propostas que aparentemente parecem fantásticas, que custam pouco, mas cujas consequências são altamente prejudiciais. Será preciso enumerar alguns exemplos? Talvez não, porque infelizmente todos nós conhecemos casos próximos, casos de amigos que, apesar da formação cristã que tiveram, e até dizem que têm, na hora de assumirem a sua posição, optam pelo mais fácil, pelo que custa menos!
A este propósito, partilho convosco uma anedota que li no livro Deus ri, de James Martin:
Em certa igreja havia um problema terrível com morcegos, que voavam sobre as cabeças dos paroquianos durante as celebrações litúrgicas.
Quando os morcegos se instalaram nas traves, o padre comprou um gato, que deixava na igreja durante a noite. Mas os morcegos permaneceram. O padre seguinte contratou os serviços de um exterminador profissional que, com elevados custos, fez a fumigação de todo o edifício. De nada serviu: os morcegos não se foram embora.
Finalmente, chegou um novo pastor, que, ao fim de poucas semanas, conseguiu que os morcegos nunca mais voltassem. Os paroquianos ficaram encantados. No domingo, um deles perguntou-lhe como se vira livre dos bichinhos.
– Oh, foi fácil – retorquiu ele. – Baptizei-os e dei-lhes o crisma a todos... A partir daí, sabia que nunca mais os veria.
De facto, é esta uma dura realidade com que a Igreja se depara e sobre a qual a Nova Evangelização é chamada a reflectir. Apesar das inúmeras dificuldades com que nos deparamos, é bom recordar que as nossas iniciativas não dependem exclusivamente do engenho, habilidade ou capacidade de cada um, mas são resposta confiante e obediente a Deus, que nos dará os meios e a força para avançar. Para avançar até contra a corrente, se for preciso.
De Bento XVI a Francisco
Quero agradecer o legado que o Papa Bento XVI nos deixou e que muito contribuiu para a edificação da nossa fé. Foi um homem atento à realidade dos jovens, soube estar junto deles e caminhar a seu lado: «Queridos amigos, estendei o olhar e vede ao vosso redor: tantos jovens perderam o sentido da sua existência. Ide! Cristo precisa também de vós. (… ) O anúncio de Cristo não passa somente através das palavras, mas deve envolver toda a vida e traduzir-se em gestos de amor. (…) nunca esqueçais que o primeiro acto de amor que podeis fazer ao próximo é partilhar a fonte da nossa esperança: quem não dá Deus, dá muito pouco.» (Bento XVI, da Mensagem para as próximas Jornadas Mundiais da Juventude)
Faço votos para que o Papa Francisco nos ajude nesta missão de caminhar, edificar e confessar, pois como ele disse: «a realidade não é tão fácil, porque às vezes, quando se caminha, constrói ou confessa, sentem-se abalos, há movimentos que não são os movimentos próprios do caminho, mas movimentos que nos puxam para trás.
O Menino Jesus fortaleça a nossa fé e continue a ajudar os pastores da Igreja.
Menino Jesus de Praga, sê jovem na nossa juventude.
jmjp@santuariomeninojesus.org
(Mensageiro nº 181 Mar-Abr 2013)