A alma nos cuidados intensivos

 

 

A determinado momento vi-me envolto em luzes e sirenes que emitiam um ruído tenebroso e ensurdecedor.

Olhei à volta e vi uma imensidão de pessoas em estado preocupante, aflitas e em grande agitação. Homens de bata branca corriam e desfaziam-se em mil tarefas. Pareciam preocupados e a lutar contra o tempo.

Ouviam-se gritos e gemidos. O pânico parecia estar instalado!

Um pouco à margem escutavam-se alguns comentários, como os dos “treinadores de bancada”, que apesar de não saberem ao certo o que se estava a passar, arriscavam, mesmo assim, a dar palpites.

«Isto tinha que acontecer! Ao que se ouve dizer por aí, mais tarde ou mais cedo, tinha que acontecer; certamente que não tinha descansado o suficiente; para mim foi a falta de condições; ou perdeu o controlo; deve ser mais uma das modas que andam por aí; se calhar descuidou-se». Eram estes os comentários, pouco fundamentados, que se ouviam.

O ambiente estava tenso!

Pouco depois o cenário era outro: muitas máquinas esquisitas, dezenas de luzes, homens e mulheres de bata branca e, de novo, numa grande azáfama, contudo, pareciam bem organizados.

Que situação seria aquela e o porquê de tudo isto?

Estas pessoas de bata branca usavam algo a tapar a boca e conversavam entre si, parecia que falavam “em segredo”. Entre as poucas expressões que percebi, a que fixei foi: “coitadinha da alma”…

Fiquei ainda mais confuso e ao mesmo tempo pensativo!

O que tinha a ver a alma com toda esta situação? Mas de que alma é que estariam eles a falar? Seria da mesma que eu conheço?

Após longo período de tempo saíram dali e foram para uma sala com muitas camas e onde reinava um grande silêncio. Pude verificar que havia ali mais alguém. Seriam almas? – interroguei-me!

Na rua não se falava de outra coisa. Parecia que toda a gente era conhecedora desta situação. As pessoas caminhavam apressadamente e conversavam entre elas do que tinha acontecido. Nas esplanadas, um burburinho e por vezes lá se ouvia – “alma”!

Ao chegar à banca dos jornais, fiquei com a certeza de que toda a gente falava mesmo da “alma”.

Estava escrito, em grande manchete, num dos jornais: «Procura-se corpo da alma». Outro jornal destacava: «Alma influenciada corre perigo». Um outro jornal tinha escrito: «Alma no hospital, por falta de alimento». Ainda outro que ousava afirmar: «Alma atropelada».

Não sei o que estava escrito no desenvolvimento destas manchetes, mas atrevi-me a perguntar ao homem que vendia os jornais se sabia o que se tinha passado, mas ele não me soube explicar. «Apenas sei que hoje o negócio está a correr bem!» – confessou o homem, com um sorriso no rosto.

Um senhor que estava atrás de mim e tinha ouvido a minha questão, interpelou-me:
– O jovem quer saber o que se passa?
– Quero, pois! – respondi.
– Nos últimos tempos a alma tem sofrido muitos ataques, mas este último foi dos mais violentos.
– Mas a alma de que você fala, é a mesma que eu conheço? – perguntei.
– Certamente! Apesar de haver muitas, quem lhes dá ser é o Espírito. – e explicou-me:

A pessoa humana, criada à imagem de Deus, é um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual. O corpo do homem participa na dignidade da «imagem de Deus»: é corpo humano precisamente por ser animado pela alma espiritual, e a pessoa humana na sua totalidade é que é destinada a tornar-se, no Corpo (Místico) de Cristo, templo do Espírito: «Corpo e alma, mas realmente uno, o homem, na sua condição corporal, reúne em si mesmo os elementos do mundo material, que assim nele encontram a sua consumação e nele podem louvar livremente o seu Criador.

Muitas vezes, a palavra alma designa, nas Sagradas Escrituras, a vida humana, ou a pessoa humana no seu todo. Mas designa também o que há de mais íntimo no homem e de maior valor na sua pessoa, aquilo que particularmente faz dele imagem de Deus: «alma» significa o princípio espiritual no homem.

A unidade da alma e do corpo é tão profunda que se deve considerar a alma como a «forma» do corpo; quer dizer, é graças à alma espiritual que o corpo, constituído de matéria, é um corpo humano e vivo. No homem, o espírito e a matéria não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza.

– Compreendes agora a gravidade da situação? Percebes o porquê de quererem magoar a alma? Sabes que a Igreja também tem alma?

Deus permite que os males aconteçam para deles tirar um bem maior. Daí a palavra de São Paulo: “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20). Acredita que a alma irá recuperar porque não lhe falta o amor. Por agora precisa de se purificar.

Olha, diz aos jovens, para serem amigos desta alma, com a sua.
Coragem. Caminhem sempre de mãos unidas.

De súbito, estremeci e acordei!

Fiquei horas a fio, a pensar neste sonho e na sua relação com a actual situação pela qual a Igreja passa. De facto não pudemos baixar os braços, porque sabemos em quem acreditamos e confiamos nos seus ministros, pois deles também temos bons exemplos.

Que o Menino Jesus, nos encha com o seu amor e nos continue a ajudar a ser Igreja.
Menino Jesus de Praga, sê jovem na nossa juventude.


jmjp@santuariomeninojesus.org

(Mensageiro nº 164 Maio-Junho 2010)