Que bom que é o cheiro das férias. A doçura de haver um despertador que não toca. E o leite que não nos escalda a língua nem queima a garganta porque é bebido calmamente, sem a voz da mãe a gritar «ó rapaz, quantas vezes já disse para te levantares? Tu já viste que horas são? Ainda vão perder o autocarro…».
Estamos no dito tempo de férias.
Para muitos é um tempo bem merecido depois de um ano escolar cheio de preocupações e de estudos. É pois tempo para descansar e recuperar forças para o próximo ano escolar. Para aqueles que não se empenharam tanto durante o ano é um tempo oportuno para fazer o balanço do que correu menos bem, rever matérias e preparar novos métodos de estudo para o próximo.
Nada melhor que um tempo para fazer coisas diferentes, de que gostamos, mas que guardamos na gaveta, à espera de oportunidade para as realizar. Essa oportunidade está aí!
A palavra «férias» vem do latim «feria» que significa feira. Entre os romanos, era o dia em que se prescrevia a cessação do trabalho. Talvez para que as pessoas estivessem livres para feirar. Hoje, quando se diz que vou de férias, não significa que vou à feira. A palavra já tomou um significado mais amplo. Férias são o tempo de repouso.
Mas descansar não é sinónimo de não fazer nada (até porque não fazer nada cansa e não é nada divertido). O truque para teres umas férias em cheio é aproveitares o tempo da melhor maneira possível, responsavelmente e de forma a poderes crescer como pessoa.
É nas férias que se arranjam novos amigos, se lêem aqueles livros todos que não houve tempo para ler, se aprende a tocar viola, se passam horas a fio a jogar no computador, se vai ver o pôr-do-sol e ouvir o mar, se visitam uma data de sítios que não se conheciam e por vezes também se arranjam grandes sarilhos. Cuidado com os perigos que estão à espreita e sabes bem os seus apelidos! Convém não deixar que o sol “queime o caco”!
Por isso a ordem do dia, ou melhor, das férias é Planear.
Planear as férias não significa que esteja tudo pensado e marcado até ao milímetro. A gestão sensata desse equilíbrio é meio caminho para umas boas férias.
Há muito tempo, um ilustre professor queria atravessar o rio da sua cidade. Esperavam-no na outra margem uns alunos sedentos do seu imenso saber. Era uma pessoa importante, mas, apesar disso, como naquele tempo os motores não estavam vulgarizados, só lhe restava procurar os serviços de um barqueiro que o conduzisse, são e salvo, à outra margem. O único disponível era um homem já idoso que, simpaticamente, o convidou a subir para a sua embarcação. Tinha chovido bastante nos dias anteriores e o caudal do rio estava elevado e agitado. O intelectual era magro, mas o barqueiro estava a sentir alguma dificuldade em manobrar o barco, tal era a fúria da corrente. O professor, depois de se instalar o mais comodamente possível, perguntou-lhe:
– Pobre homem! Sabes alguma coisa de literatura? Ante o espanto do barqueiro, continuou. – Não! Mas onde é que eu tenho a cabeça?! Já se estava a vislumbrar uma resposta negativa. Mas pelo menos sabes ler? Escrever? O tom era afectado e a crítica tinha um travo muito venenoso.
O barqueiro, calmamente, e sem deixar de remar, respondeu:
– Não, professor, não sei ler nem escrever. Estou sempre a trabalhar. Desde que me lembro, estou sempre a trabalhar. Primeiro, quando gaiato, no campo com os animais; depois na lavoura do rio, a coser estas margens. Sempre tive de contribuir para sustentar a minha família, nunca me sobrou tempo para aprender a ler. Sei do meu ofício e conheço o rio como a palma da minha mão: o nome dos peixes, os locais onde os picam mais, as melhores épocas para pescar, as correntes, os baixios. Isso é tudo o que agora tenho de saber para continuar a sustentar a minha família.
O professor respondeu-lhe:
– Que pena homem, que pena. Gastaste metade da tua vida nos barcos e nada sabes das coisas mais importantes da vida. Não conheces o pensamento dos sábios gregos, as magníficas metáforas dos grandes poetas, os mistérios fascinantes do corpo humano… É o que te digo, já perdeste metade da vida.
O professor continuou a fazer uma autêntica palestra para si próprio sobre a importância da cultura, a necessidade de ascender à luz do conhecimento, mas, sobretudo, defendendo o seu acesso restrito.
O barqueiro ouvia, tentando seguir o raciocínio do professor. Interveio aqui e ali, pedindo explicações sobre algumas daquelas complicadas ideias.
No entretanto, a corrente do rio acelerou a sua fúria, ou talvez as forças do barqueiro tenham fraquejado. O que é certo é que os acentuados solavancos da ondulação e o barro opaco das águas assustaram o intelectual. Vendo-o muito pálido, o barqueiro perguntou-lhe:
– Uma personagem tão ilustre e instruída saberá por certo nadar?
Atrapalhado, e algo embaraçado, o professor respondeu:
– Não, não sei nadar.
– Oh, que pena!, ironizou o barqueiro. – Passou metade da sua vida a aprender coisas importantíssimas nos livros e não teve tempo de aprender a nadar. Pois então, boa sorte. Se o barco virar, perdes a vida toda!
Depende de nós fazer das férias um tempo de crescimento físico, intelectual e espiritual, de descoberta vocacional, de enriquecimento cultural e, porventura, de ajuda a quem mais precisa. Basta, para isso, planear. Nesta época do ano, os municípios portugueses, vários movimentos, associações e institutos religiosos organizam actividades dedicadas aos adolescentes e jovens.
Já tinhas pensado na ideia?
Que o Menino Jesus, nos ajude a planear bem as férias, para delas tirarmos os melhores frutos.
Menino Jesus de Praga, sê jovem na nossa juventude.
jmjp@santuariomeninojesus.org
Jovens do Menino Jesus de Praga
(Mensageiro nº 153 Julho-Agosto 2008)
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