Ser amigo

 

 

Em coisas insignificantes é que um verdadeiro amigo se avalia, assim escreveu Camilo Castelo Branco, ilustre escritor Português.

Certamente que tens uma ideia, um conceito, sobre o que é ser amigo, ter um amigo. Se procurares no dicionário ou na Internet uma definição de amigo, encontras muitas e bonitas.

Mas pergunto-te: recordas alguma experiência de amizade que te tenha marcado? Então essa é para ti a melhor definição de amigo, porque a vivenciaste.

Pessoalmente não gosto da expressão mau amigo, porque a palavra amigo está associada a algo de bom, daí que não me parece bem colocar a palavra mau junto à palavra amigo. Se é amigo, é amigo e daí é-o no verdadeiro sentido da palavra, caso contrário chamemos-lhe outra coisa.

É importante ter amigos, mas não será tão importante, ou mais, ser amigo?! Pois é, por vezes preocupamo-nos mais em ter amigos e esquecemo-nos do outro verso da medalha: nós próprios sermos amigos.

As relações de amizade são muito importantes na realização de tarefas, no trabalho e até nas actividades da Igreja.
São nestes ambientes que muitas vezes surgem desacatos, interesses, ciúmes… e gera-se mau estar.
Porquê tudo isto se se trabalha para a mesma causa? Ou não será a causa sinónimo do mesmo objectivo?
Por exemplo, numa paróquia é habitual existir o grupo de acólitos, catequistas, ministros da comunhão, confrarias… não é bom que todos estes grupos sejam amigos? Para quê criticar o que o fulano A, B ou C fez? Será que não se pode evitar estas pequenas guerrinhas?

Reza a lenda que o discípulo de um sábio filósofo chegou a casa deste e disse-lhe:
– Mestre, na condição de teu amigo, tenho uma coisa muito grave para te dizer.
– Espera! – interrompeu o filósofo. Já fizeste passar pelos três crivos aquilo que estás prestes a contar-me?
– Os três crivos? Perguntou o discípulo.
– Sim. O primeiro é o da verdade. Tens a certeza de que o que queres dizer-me é absolutamente certo?
– Não. Assegurar mesmo, não posso... mas ouvi alguns vizinhos a comentá-lo…
– Pelo menos tê-lo-ás passado pelo segundo crivo, o da bondade. Ainda que não seja real o que julgas saber, será pelo menos bom para alguém?
– Não, na realidade não. Pelo contrário.
– Ah! – disse o sábio – então recorramos ao terceiro crivo, o da necessidade. É necessário que eu saiba aquilo que tanto te inquieta?
– Em boa verdade, não.
– Nesse caso – disse o sábio a sorrir –, se não é verdadeiro, nem bom, nem necessário… vamos esquecê-lo.
Por vezes as pessoas nem sequer se apercebem de que estão a ser indelicadas com o seu gesto, com o que disse ou fez, daí que é urgente cuidar a forma como nos expressamos ou comentamos e acima de tudo devemos “medir” a utilidade do assunto em causa.

Há bem pouco tempo deu-se início a mais um ano pastoral. É uma boa altura para pensar em tudo isto, a fim de que cada um dê o melhor de si para o bem de toda a comunidade paroquial, movimento ou grupo.

É preciso ter amigos e ser-se amigo.
Tenhamos presente o que nos diz a palavra de Deus, no livro de Ben-Sirá, a respeito da verdadeira amizade:
«Palavras amáveis multiplicam os amigos, a linguagem afável atrai muitas respostas agradáveis.
Procura estar de bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil.
Se queres ter um amigo, põe-no primeiro à prova, não confies nele muito depressa.
Com efeito, há amigos de ocasião, que não são fiéis no dia da tribulação.
Há amigo que se torna inimigo, que desvendará as tuas fraquezas, para tua vergonha.

Há amigo que só o é para a mesa, e que deixará de o ser no dia da desgraça; na tua prosperidade mostra-se igual a ti, dirigindo-se com à vontade aos teus servos; mas, se te colhe o infortúnio, volta-se contra ti, e oculta-se da tua presença.
Afasta-te daqueles que são teus inimigos, e está alerta com os teus amigos.
Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro.
Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor.
Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor acharão tal amigo.
O que teme o Senhor terá também boas amizades, porque o seu amigo será semelhante a ele.» (Sir 6, 5-17)

De facto a amizade é um dos maiores valores do homem. É rara e difícil de encontrar. Não pode existir onde houver egoísmo, e é sempre perigoso contraí-la de maneira imprudente e precipitada.

Que o Menino Jesus nos ajude a encontrar amigos e a procurar sê-lo.
Menino Jesus de Praga, sê jovem na nossa juventude.

jmjp@santuariomeninojesus.org

(Mensageiro nº 160 Setembro-Outubro 2009)

 

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