Justificações na ponta da língua

 

 


A preguiça, a teimosia, o desleixo, o desinteresse, o faltar às aulas, não comer a sopa, não desligar o telemóvel, não ir à missa… têm sempre uma justificação.

Quando queremos afirmar a nossa posição, temos sempre um rol de desculpas feito à medida das circunstâncias. Até parece que conforme os anos vão passando, mais aperfeiçoamos esta “técnica”!

Da (dor de) cabeça à ponta do dedo dos pés, passando pelo “não concordo”, ou pelo “não me apetece”, não faltam dores e argumentos para não realizarmos determinada tarefa, para justificar o que não tem justificação.

No que diz respeito à religião e ao modo como vivemos a fé, o cenário pode tornar-se semelhante até ao ponto de querermos justificar aquilo que muitas vezes não passa de preguiça.

Não vou à Missa, mas rezo em casa; não me confesso porque o padre (também) é tão (ou mais) pecador como eu; não fui à missa, mas rezei o terço; não peço o Baptismo para a criança, quando ela for grande que decida. Esta pequena amostra de justificações é habitual, mas a razão profunda está na falta de esforço para aprofundarmos e vivermos a fé.

Há ainda os que dizem não gostar de normas e ritos: preferem uma religião “livre”, sem estruturas. Esquecem-se de que somos seres humanos e usamos o nosso corpo como meio de comunicação. Traduzimos os nossos sentimentos com um sorriso, um aperto de mão ou uma palavra amiga. Gostamos de reunir a família e os amigos nos dias de festa; no aniversário damos os parabéns por mais um ano que passou; fazemos questão de lembrar o dia da Mãe e o dia do Pai. E com Deus, como nos relacionamos? Não serão também necessários gestos e sinais para nos relacionarmos com Ele? Não será preciso conhecê-lo de perto?

Havia um homem que sabia de memória o horário de todos os comboios que por ali passavam. O seu maior prazer era estar na estação e passar horas e horas a contemplar a chegada e a saída dos comboios. Observava, maravilhado, a força das locomotivas, as inúmeras carruagens, as pessoas que subiam e desciam. Sabia inclusivamente quanto custava um bilhete de primeira e de segunda classe.

Nunca ia ao cinema, nem ao café, nem ao futebol, nem à praia. Não tinha rádio, nem televisão, nem computador. Não lia jornais nem livros. Não tinha tempo para essas distracções, uma vez que todo o tempo livre era passado na estação de caminho-de-ferro.

Aconteceu que um dia alguém lhe perguntou a hora da saída de um comboio. Ficou radiante e quis saber com exactidão qual era o destino da viagem, e não deixou ir embora o passageiro enquanto não lhe disse a hora do comboio, o respectivo número, o ano de fabrico da locomotiva, o número de vagões que levava, as ligações possíveis... Tantas explicações deu que o passageiro perdeu o comboio.

Contudo, por estranho que pareça, este nosso homem nunca entrara num comboio. Dizia que não precisava de subir para o comboio porque já sabia de antemão onde ia chegar, a que horas e quais eram as estações e as características do comboio.

Transpondo este conto para o nosso tema, pode haver quem julgue que para se viver a fé não é preciso estar por dentro. Ora, não basta ter o conhecimento teórico da fé, mas é preciso fazer experiência do encontro pessoal com Cristo. E onde se realiza plenamente este encontro? _ Na Eucaristia.

Existem inúmeras formas de oração: o terço, as novenas, as procissões… mas todas juntas não chegam à dignidade e ao poder santificador da Eucaristia, embora não sejam incompatíveis. O problema é quando fazemos delas um substituto da Eucaristia. Aí não há justificação aceitável. O Espírito Santo que nos ensina a orar, quando rezamos sozinhos, na Eucaristia actua, realiza, consagra. Há uma grande diferença entre o que eu desejo ao suplicar na oração pessoal, e o que Espírito realiza em meu favor no seu agir concreto na Eucaristia. Na minha oração sou eu que rezo; na Eucaristia é Deus que actua em mim. Unir as duas coisas é que é bom. Ficar apenas com uma delas é limitado.

A oração deve prolongar e apontar para a Eucaristia, pois é aí que Cristo está presente sob as duas espécies: o pão e o vinho. A Eucaristia prolonga-se nas outras formas de oração, e todas as formas de oração, se conduzem à Eucaristia, estão no bom caminho.

Na Eucaristia que encerrou a Jornada Mundial da Juventude em Madrid, em Agosto de 2011, o Papa Bento XVI fez um convite concreto aos jovens a participarem na Eucaristia e a seguirem Jesus em comunidade: «(..) permiti também que vos recorde que seguir Jesus na fé é caminhar com Ele na comunhão da Igreja. Não se pode, sozinho, seguir Jesus. Quem cede à tentação de seguir “por sua conta” ou de viver a fé segundo a mentalidade individualista, que predomina na sociedade, corre o risco de nunca encontrar Jesus Cristo, ou de acabar seguindo uma imagem falsa d’Ele. Ter fé é apoiar-se na fé dos teus irmãos, e fazer com que a tua fé sirva também de apoio para a fé de outros. Peço-vos, queridos amigos, que ameis a Igreja, que vos gerou na fé, que vos ajudou a conhecer melhor Cristo, que vos fez descobrir a beleza do seu amor. Para o crescimento da vossa amizade com Cristo é fundamental reconhecer a importância da vossa feliz inserção nas paróquias, comunidades e movimentos, bem como a participação na Eucaristia de cada domingo, a recepção frequente do sacramento do perdão, o cultivo da oração e a meditação da Palavra de Deus».

Façamos do tempo presente a melhor oportunidade para apoiarmos as vigas da nossa fé.

O Menino Jesus nos ajude a viver em comunidade e a justificar a alegria do seu encontro.

Menino Jesus de Praga, sê jovem na nossa juventude.

jmjp@santuariomeninojesus.org

(Mensageiro nº 174 Jan-Fev 2012)

 

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