Encontrava-me à porta de desembarque do aeroporto quando dei por mim a olhar para todo aquele cenário que me envolvia: a senhora da cafetaria que servia uma garrafa de água, outra senhora a vender gomas e rebuçados, na banca dos jornais algumas pessoas que liam as últimas notícias publicadas, um espaço onde se vendiam flores, o serviço de informações que prestava auxílio a umas pessoas, a polícia que por ali andava, cinco pessoas atentas ao painel onde se indicam os voos que partiam e que chegavam.
Além disto havia ainda três grupos de pessoas que me chamavam a atenção: os que estavam sentados nos bancos, os agentes turísticos e os que, como eu, estavam ao lado desta área reservada, de frente para a porta por onde saíam os passageiros.
As pessoas sentadas nos bancos conversavam, liam o jornal e de quando em vez olhavam para a porta, parecendo um pouco à margem, ao passo que os outros dois grupos não paravam de olhar para a porta, que abria e fechava automaticamente sempre que alguém se aproximava. Os agentes turísticos tinham um papel na mão com o nome daqueles de quem estavam à espera e quando a porta se abria logo levantavam o papel para o caso de ser a pessoa indicada. O grupo de pessoas ao lado também não tirava os olhos da porta, na esperança de que, quando esta se abrisse, iriam ver a pessoa que esperavam.
Notei nestes dois grupos, dos agentes turísticos e das pessoas ao lado, uma grande ansiedade e inquietação que se acentuavam sempre que a porta se abria. Parecia resplandecer-lhes no rosto o «é agora!». Até as crianças saltavam desassossegadas e perguntavam: «ainda vai demorar muito?».
A porta fechava-se e os ânimos acalmavam; de novo a porta se abria e logo os olhos se mostravam expectantes. Foi assim inúmeras vezes, até que a porta se abriu uma vez mais e se cruzaram os olhares de quem chegara e de quem esperava. A espera produziu frutos em abundância...
Fiquei a imaginar o que estaria por detrás daqueles encontros: talvez umas férias, uma viagem de negócio ou longos meses de trabalho noutro país. Histórias diferentes mas que, por breves momentos, a passagem por aquela porta tornou iguais: a alegria do encontro.
Entendi a importância daquela porta e das muitas portas que a nossa vida tem. Há portas grandes e portas pequenas, de cores e feitios distintos, que, ao abrirem-se, nos permitem o acesso a inúmeras oportunidades. O segredo está na opção pela porta e na possibilidade que temos de a abrir.
Há muito, muito tempo, um ilustre artista pintou um belo quadro. Maravilhado pela sua obra, resolveu apresentá-la ao público.
Compareceram as autoridades locais, fotógrafos, jornalistas e muitas outras personalidade, atraídas pela sua fama de grande criador.
Chegado o momento, o pano que cobria o quadro foi retirado e logo ressoou uma grande salva de palmas. O quadro representava uma impressionante figura de Jesus que batia suavemente à porta de uma casa. Cristo parecia vivo e com um rosto que difundia paz e tranquilidade. Com o ouvido junto à porta, parecia querer ouvir se lá de dentro alguém respondia.
Houve discursos e elogios a tão grande beleza. Todos admiravam aquela obra de arte.
Um observador atento e curioso reparou na falta de um pequeno pormenor no quadro: a porta não tinha fechadura! Foi ao encontro do artista e interpelou-o:
– A porta não tem fechadura! Como se poderá abrir?
– Amigo, é mesmo assim, não é nenhum defeito, respondeu o pintor, esta é a porta do coração do homem. Só abre por dentro!
Recordo esta história no sentido em que nós somos porta para os outros e porta para Jesus. Quantas vezes não nos deixamos abrir?!
Como nos advertia o Beato João Paulo II, «no mundo actual, somos tentados por muitas portas, que infelizmente não levam nem à plenitude nem à felicidade. Ao contrário, podem precipitar o homem no abismo do vazio e da dependência. Quem deixou de procurar “o caminho, a verdade e a vida” (cf. Jo 14, 6) deixou de encontrar o acesso a Deus».
Este mesmo Papa, no discurso inaugural do seu pontificado desafiou-nos a não ter medo e a sermos radicais no seguimento de Jesus: «não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o seu poder! (...) Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, ou melhor, escancarar as portas a Cristo»!
E a esta hora, se não se avariou, a porta de desembarque continua a abrir e a fechar. Histórias que se repetem vezes sem conta de quem vem e de quem espera. De quem tem uma porta aberta e de quem espera que Ele chegue.
E tu, que experiência tens feito da tua porta e das portas que encontras?
O Menino Jesus, porta da paz e do amor, sustente sempre os nossos passos e nos indique o caminho de uma vida com sentido.
Menino Jesus de Praga, sê jovem na nossa juventude.
jmjp@santuariomeninojesus.org
(Mensageiro nº 175 Mar-Abr 2012)
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