Fátima – 1...2...3

 

 



Andava eu a delinear as linhas mestras para o próximo artigo deste Mensageiro, quando recebo um email do respectivo director com uma proposta arrojada. O pedido era muito simples: «Pensei que o Mensageiro de 2017 – escrevia Frei João – deveria falar do centenário das aparições. E a ti, que és cidadão dessa terra abençoada, pensei pedir-te seis textos sobre seis conversas com o teu filho». E assim, de uma só assentada, estávamos conversados para o resto do ano!

Por momentos achei um pouco estranho este pedido, mas aos poucos fui amadurecendo a ideia na certeza de que se Deus a inspirou, também me há-de ajudar a concretizá-la.
Outra interrogação com que me deparei, foi o facto de o pedido vir direccionado a mim, numa conversa com o nosso filho Francisco e por assim excluir a nossa filha Maria. Mas, é certo que a conversa aos 5 anos de idade é muito diferente da de 20 meses… ou se calhar foi pela igualdade do nome ao de um dos Pastorinhos!
Há muito que 2017 é visto como o Ano para Fátima e agora, aqui chegados, e que o Papa Francisco confirmou que viria como peregrino ao «Altar do mundo», vemos a profecia confirmada.
Com todas as atenções a voltarem-se para as comemorações do Centenário das Aparições é, sem dúvida, uma ocasião para reavivar a Mensagem que Nossa Senhora nos deixou.
Não é apenas uma ocasião para assinalar um acontecimento histórico, mas sim uma oportunidade para aprofundar e fortalecer a nossa fé, contribuindo para o crescimento espiritual dos fiéis.
Feita esta nota introdutória, fui procurar ao baú das memórias algumas conversas que tive com o nosso Francisco acerca do «acontecimento Fátima».
Um dia, andava na rua com ele, quando, espontaneamente, me perguntou:
– Pai, porque é que vêm tantas pessoas aqui?
– Sabes, Fátima, tornou-se uma terra muito especial, não só para Portugal, mas para todo o mundo – respondi eu. Há milhões de pessoas que vêm cá e depois voltam para suas casas; vêm, especialmente, para rezar a Deus por intermédio de Nossa Senhora – acrescentei.
– A Nossa Senhora é Aquela que está dentro daquele vidro? – perguntou ele.
– Sim, a Nossa Senhora é a Mãe de Jesus e está representada naquela imagem a que as pessoas se habituaram a dizer «Nossa Senhora de Fátima» e que se encontra na Capelinha das Aparições.
– Então a Nossa Senhora só está aqui?
– Não. A Nossa Senhora está no Céu e desta forma está em todo o lado! Mas há muitos anos atrás, faz agora 100 anos, que Ela apareceu neste lugar a três crianças.
– 100 é muito? É mais que 10? Eu sei contar até 10!
– Para chegares a 100, abres as duas mãos e agora contas assim 10 vezes… no final vais ter 100.
– Tu disseste que a Senhora apareceu a três crianças.
– Sim. Chamavam-se: Lúcia, Francisco e Jacinta, também conhecidos como os Três Pastorinhos.
– Os três porquinhos também eram três e os Reis Magos eram outros três – afirmou ele com toda a convicção!
– É verdade (ri-me)… estás muito certo!
– Então quem era o mau? – perguntou-‑me.
– O mau?! Não entendi a tua pergunta – retorqui.
– Ó pai!... na história dos três porquinhos, o mau é o lobo. Na história dos Reis Magos o mau é o rei velhote [Herodes]. E nos Pastorinhos?
– Pois… aqui os maus são os homens, ou melhor, a guerra que os homens provocam. Morreu muita gente naquele tempo. As pessoas andavam muito tristes – tentei esclarecer.
– Eu já vi na televisão a rega [guerra]; eles andam com tucas [armas] e aquilo dói! – disse ele pensativo. Em seguida perguntou:
– E como eram os três meninos a quem Nossa Senhora apareceu?
– Olha, o Francisco e a Jacinta eram irmãos e a Lúcia era prima deles. Cuidavam das ovelhas dos pais, por isso lhes chamam os Três Pastorinhos. A Lúcia tinha 10 anos, o Francisco 9 anos e a Jacinta 7 anos. Nasceram em Aljustrel, naquelas casas baixinhas onde já estivemos várias vezes, lembras-te?
– Onde têm as ovelhas? – questionou.
– Sim, essa era a casa da Lúcia. A do Francisco e da Jacinta fica um pouco antes – tentei eu explicar.
– Ah pois! É onde estão aquelas panelas giras! – rematou.
– É aí mesmo – respondi eu, continuando com a descrição dos Pastorinhos. – A Jacinta era muito divertida, gostava muito de dançar e de fazer joguinhos. Quando as coisas não corriam à sua maneira ficava de beiças.
Morreu quando tinha apenas 9 anos. Já o Francisco era um paz-d’alma. Muito calmo, gostava de cantar e de tocar pífaro e não se importava de perder nos jogos. Faleceu com 11 anos.
– Mas ó pai, o que é aquilo que ele tocava? – interrompeu ele.
– O pífaro, é uma espécie de flauta! Ele tocava muito bem – respondi eu e continuei:
– A Lúcia viveu até aos 98 anos. Morreu há poucos anos, precisamente no dia 13 de fevereiro de 2005, no convento das Irmãs Carmelitas, em Coimbra. Era muito divertida e uma boa contadora de histórias.
– Eu gosto muito de ouvir histórias – acrescentou ele.
– Ficamos combinados: um dia destes conto-te algumas histórias dos Pastorinhos. Olha, a mãe já lá vem com a Maria. Vamos ver quem as apanha primeiro?
– Sou eu. As minha sapatilhas são super-rápidas!
Nossa Senhora de Fátima, intercedei por todas as crianças junto do vosso Filho, Jesus, para que cresçam alegres e felizes na Vossa escola.

Delfim Machado

 

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