Como qualquer cidadão atento, tenho seguido com relativo interesse a novela sobre “as escutas” que ultimamente está a ser apresentada no nosso país. Hoje o problema não é de quem ouve a quem, mas de quem escuta a quem?
Deus é «Mistério». Deus não está ao nível das coisas; toca-se numa árvore, vê-se uma paisagem, ouve-se um amigo. Deus não é desta ordem. Deus é um Mistério, não uma verdade que se impõe à inteligência. Deus é um Mistério que se oferece a quem sabe escutar. A nossa vida é toda ela uma parábola a partir da qual Deus nos fala e insistentemente nos pede para O escutarmos através de todas as situações humanas.
Escutar é abrir o coração, colocar o espírito em atitude receptiva, contemplativa. É saborear em silêncio a Palavra rica e criadora de Deus. O Verbo germina no silêncio da escuta. Este género de silêncio é eloquente e ficaz. Haja quem o escute.
O cristão não é o homem das grandes visões, das ideias deslumbrantes, mas da escuta. Não se trata de ver, de tocar Jesus, mas de escutar a sua Palavra fecunda e de comprometer-se com a sua mensagem. Nisto se resume a vida da humilde Serva, a Virgem Maria de Nazaré: «Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra» (Lc 1, 38).
Quem não encontra Deus no seu coração, dificilmente O vai poder encontrar na sociedade do barulho, na agitação, no vazio e na superficialidade. Só quem vive com o coração silenciado será capaz de escutar o canto silencioso da criação e da vida, e ser louvor contínuo do Criador.
Mas só quem vive com o coração silenciado será capaz de acolher e escutar também os outros, sobretudo os mais necessitados, tornando-se solidário das suas «alegrias e esperanças, tristezas e angústias» (GS 5, 2). A capacidade de escutar de um homem depende da necessidade de fazer perguntas. «Felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque escutam» (Mt 13, 16). Deveríamos pedir esses olhos que vêem e esses ouvidos que escutam.
Vou ficar a remoer esta máxima de Santo Agostinho: «Escuta primeiro Aquele que fala dentro de ti, e então, depois diz aos de fora o que escutaste (S. Agostinho). Quer dizer, primeiro escuta Quem te fala.
Tempo de Natal! Não me incomodem com barulhos, porque quero escutar a Palavra, o Verbo, o Filho que o Pai enviou ao mundo num eterno silêncio para que, num eterno silêncio, possa ser escutada.
Tempo de Natal! Não quero prendas nem prendinhas, porque a Prenda que eu quero já a recebi de meus pais e de meu Pai: a fé em Jesus, nosso Salvador.
Diz o Evangelho de S. João que «a Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam» (Jo 1, 5). Na noite em que vivo, nas trevas que me cercam, eu quero estar de coração aberto ao Mistério de Deus e ao mistério dos outros; quero escutar a Boa Nova, acolher o Verbo que estava junto de Deus; quero juntar-me ao salmista e dizer: «A Tua Palavra, Senhor, é Luz para os meus caminhos».
As tais “escutas” da novela não sei como vão acabar. Mas, se escutar o Natal sei que vou ouvir a mais bela história de Amor.
| 2009-12-23 |
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