Ser sacerdote num mundo globalizado, cheio de imprevistos, de incertezas e inseguranças, numa identidade sacerdotal nem sempre clara e numa missão conflituosa e exigente, pode amedrontar muita gente. Para os mais corajosos estas dificuldades são um desafio e convidam a tomar cada vez mais consciência do valor do sacerdócio. Mas ser sacerdote será sempre uma aventura de fé, de amor e de esperança.
O padre Renato, jovem sacerdote, acabava de chegar do encontro dos presbíteros cujo tema era precisamente “o sacerdote na globalização”. Pedia aos irmãos no sacerdócio que o ajudassem a viver o seu e que tinha muita vontade de realizar grandes coisas, ser uma pessoa capaz de evangelizar o mundo, ser profeta, missionário. Um testemunho bonito que era capaz de reanimar qualquer sacerdote em crise ou com muitas cinzas depositadas sobre o seu sacerdócio pelas desilusões da vida.
Depois dele, o Padre André, o mais velho de todos, com 83 anos, dos quais 53 de sacerdócio, disse que se sentia muito feliz, mas que tinha já pensado em abandonar o sacerdócio nos anos a seguir ao Concílio Vaticano II, quando se sentia decepcionado com tudo e com todos. Tinha vivido uma grande crise e conseguiu superá-la graças a quatro coisas que sempre o acompanharam na vida e lhe deram força e coragem em todos os momentos difíceis.
1.Um amor muito grande a Cristo crucificado. Muitas vezes, nos momentos mais difíceis, pegava no crucifixo em suas mãos e contemplava a Jesus crucificado por amor. Chegou à conclusão de que não pode existir a alegria da páscoa, a felicidade da vida sem se ser crucificado. E neste pensamento de comunhão com Cristo crucificado, encontrou a força para não deixar o sacerdócio. E assumiu-o como crucifixão com Cristo em todos os momentos da vida.
2. O amor a Nossa Senhora. Embora em crise, nunca deixou de rezar o terço que tinha aprendido com a sua mãe na Holanda. E percebeu que esta oração comunicava verdadeira força e coragem nos momentos difíceis e que, em Maria, sempre encontrou uma presença materna. Enquanto isto dizia, mostrava com orgulho e amor o seu terço aos sacerdotes presentes e convidava-os a rezarem todos os dias o terço.
3. O que me fez desistir de abandonar o sacerdócio foi pensar em tantas pessoas que durante o meu sacerdócio eu tinha ajudado a recuperar o sentido da vida. Tinha evitado que muitos se suicidassem ou matassem outras pessoas; que recuperassem o sentido do amor à família; ajudei a evitar separações. E, o pensar que tinha ajudado muitos a recuperarem a dignidade humana, foi para mim uma força muito grande para ser fiel ao meu sacerdócio.
4. Pensar na minha mãe. Éramos uma família pobre da Holanda. Quando entrei no seminário, a minha mãe para custear os meus estudos, aprendeu o ofício de parteira, e com o pouco dinheirinho que ganhava, indo de noite lá onde os médicos não iam, ela manteve os meus estudos e a maior felicidade dela foi ver-me um dia sacerdote. Por todos estes motivos, dizia o Padre André com a voz um pouco frágil e comovida, e com os olhos embaciados das lágrimas, eu decidi não abandonar o sacerdócio e continuar a sê-lo na fidelidade e no amor a Jesus crucificado, que tinha escolhido conscientemente.
Schiadini, ocd
| 2009-12-23 |
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