Flores de esperança

Que belo tempo de quaresma para meditar: a terra a tremer, o mar a galgar as margens e a engolir a obra feita pelas mãos do homem… Por acaso, não pensei muito em Deus, mas antes olhei para a morte. A quaresma foi tempo de oração. E, segundo Santa Teresa de Jesus, a oração não consiste em pensar muito mas em amar muito. Talvez esteja aqui um engano de muita gente que reza, ou seja, pensar em Deus. Quem grita, quem se afunda, quem desespera é porque pensa em Deus. Quem ama a Deus não desespera, embora chore; não agride, embora não compreenda; não fica debruçado sobre os escombros, mas levanta-se e segue o seu caminho. Quem ama não faz perguntas.

Porque é que o homem se revolta tanto contra Deus quando há um terramoto, e não se revolta contra o homem quando há tanta injustiça, violência e exploração? Acaso é Deus o culpado da crise económica provocada pelos «ladrões» da banca e pelos «super-homens» que ganham milhões em detrimento de quem vive de esmolas! Ninguém vê os terramotos e os tsunamis que são propositadamente provocados para aumentar o fosso entre ricos e pobres? Ninguém se revolta contra aqueles que enriquecem à custa dos caídos e escravizados pela droga, o álcool, o sexo… Quantos mortos e excluídos por estes flagelos! Quantos! E quem se revolta? Hoje a moda é ir contra Deus e andar a tocar caixa atrás dos poderosos. Cada vez sou mais crente em Deus; cada vez ando mais apreensivo com o homem.
Nesta passagem do Inverno para a Primavera quase sem me dar conta ia pisando um ramalhete natural de flores brancas que nasceram no meio do caminho. Estanquei a tempo e encantei-me por elas (ver capa). Então fez-se ouvir dentro de mim um hino de quaresma, rezado todos os dias: «Crescem nas asperezas do caminho/ pequenas flores brancas de esperança; não podem os espinhos afogá-las,/ pois foi o amor quem as chamou à vida». Das cinzas e da morte, o amor faz surgir flores brancas de esperança. A primavera vem depois do inverno; a alegria vem depois da cruz.

Desaparecer e ressurgir; morrer e ressuscitar. A vida em plenitude consiste em morrer por alguém, desaparecer em cada oblação, em cada acto de amor, aniquilar-se com alegria em cada passo dado.
Orar não é outra coisa senão aprender a entregar-se sem reservas, não esconder o rosto às «mortes quotidianas» quando o amor anda pelo meio. A oração é uma história de amizade com Deus. Amar é morrer ao egoísmo atroz que nos envolve e nos mata a vida.
Saímos da noite e entramos na aurora. Saímos da morte e entramos na Vida. Saímos da terra e entramos no Céu. Enquanto andar por aqui, vou continuar a ver terramotos (os da natureza e os do homem), vou continuar a assistir a desgraças (as da natureza e as do homem), vou ouvir sempre a perguntar por Deus e ver gente revoltada. Cá por mim, vou continuar a amar a Deus, vou continuar a oferecer a vida, vou lançar sementes de flores brancas nos caminhos da humanidade; vou caminhando para a morte para que, cruzando a soleira do tempo, fique a saber onde Deus estava. Depois só quero lançar sobre a terra flores brancas de esperança, as flores das Páscoa.

 

| 2010-04-01 |

 

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