Lugares de beleza

«Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza». Foi assim que o Papa Bento XVI terminou o seu discurso, no Centro Cultural de Belém, no dia 12 de Maio de 2010, aos Ilustres Cultores do Pensamento, da Ciência e da Arte.

Estou em crer que esta será uma das frases mais repetidas e recomendadas. Acho este convite encantador! Tornar-me um lugar de beleza! A beleza é uma palavra cativante. Mas não é fácil tornar-se lugar de beleza. Esta exige muito cuidado e sacrifício! Augusto Curry, em A ditadura da beleza, escreveu na pág. 33: «Meus Deus! As sociedades modernas tornaram-se realmente fábricas de pessoas doentes. São esses modelos que ditam a moda e servem de padrão de beleza a mais de dois milhões de mulheres. O culto do corpo supermagro, difundido pelos meios de comunicação, está a gerar uma psicose social colectiva que assassina a auto-estima e a auto-imagem de crianças e adultos, inclusive a dos homens».

É evidente que Bento XVI refere-se a outra beleza: a beleza do pensamento, do coração, da imaginação! A beleza que transporta e transmite altura, dignidade e felicidade! É a beleza de Cristo. Beleza de sentimentos nobres, solidários e fraternos. A beleza da paz: «Como são belos os pés do mensageiro que anuncia a paz»(Is 52,7)! A palavra convence, a beleza atrai. Eu julgo que a beleza não se pode definir, mas pode-se contemplar. É como Deus. Nós não sabemos definir nem descrever Deus, mas podemos contemplá-lo nos seus mistérios e nas suas obras. «A beleza é sempre um raio de luz que toca no coração dos homens e é sempre, mesmo que não se saiba, uma experiência de eternidade, uma experiência do divino» (D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, nas comemorações dos 40 anos da Populorum Progressio).

Ser «navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza» o que poderá ser isso? É uma coisa com letra maiúscula; é importante. Nós, portugueses, somos descendentes de navegantes e conquistadores. Agora temos os navios atracados e acabaram os tempos das conquistas. Contudo, o Bem, a Verdade e a Beleza cativam-nos para «entrar mais adentro na espessura», no segredo, na profundidade e raiz da vida, das pessoas e das coisas. Navegar é preciso!

Ao falar de Beleza, não posso deixar de citar e de fazer minha a confissão de Santo Agostinho: «Tarde Vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim Vos procurava; com o meu espírito deformado, precipitava-me sobre as coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós.»
E tu, navegante do Bem, da Verdade e da Beleza, que fazes? Trabalho na arte de fazer da minha vida um lugar de beleza. «As criaturas são como um rasto da passagem de Deus; por meio delas vislumbra-se a sua grandeza, sabedoria e demais excelências divinas» (S. João da Cruz).

 

| 2010-06-01 |

 

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