História do Santuário do Menino Jesus

Antecedentes

No ano de 1940, a Província de S. Joaquim de Navarra (Espanha) – sendo Provincial o P. Redento do Menino Jesus – tomou a seu cargo os destinos da Ordem em Portugal, a fim der restaurar a antiga Província de S. Filipe. Esta Província, muito florescente desde os primeiros alvores da Reforma, glorificou muito a Deus e honrou a Senhora do Carmo através dos carmelitas portugueses de outros tempos.

Esta extinta província carmelita, que até 1940 tinha estado sob a tutela da Província de Andaluzia, ao passar para a de Navarra contava com as seguintes casas: 1) O antigo convento da Ordem, em Viana do Castelo, quase todo em ruínas; 2) O antigo convento da Ordem, em Aveiro, a precisar de grandes reparações; 3) O Convento de Elvas, antiga casa dos Padres Jesuítas e actualmente paróquia; 4) O antigo convento da Ordem Terceira no Funchal (Madeira); 5) Uma casa na Rua de Gondarém, no Porto; 6) Um apartamento na Rua Ressano Garcia, em Lisboa.

Isto mostra o trabalho abnegado e árduo que os Padres Carmelitas Descalços realizaram na Nação Portuguesa. Deus quis abençoar os seus trabalhos com uma grande pujança vocacional. No ano de 1952 começou a restauração do Convento de Viana do Castelo para sede do Seminário Menor da Ordem.

O sonho

Decorria o ano de 1958. Era Delegado Provincial dos Carmelitas Descalços em Portugal o Rev. P. Isidoro da Virgem do Carmo (João Magunagoicoechea Zarragoitia). O antigo Convento do Carmo, em Viana do Castelo, estava pronto para acolher as inúmeras vocações carmelitas que surgiam em todo o território português. O Seminário era uma realidade e constituía um marco importante na história da Ordem. Se as vocações continuassem com o ritmo daquele momento, seria necessário construir uma Casa para o Noviciado. Na verdade, os primeiros seminaristas portugueses, após o 5º ano do Seminário Menor, rumavam para Espanha a fim de fazerem o Noviciado (Larrea), o Curso de Filosofia (Vitória) e o de Teologia (Bilbao).

Por esta altura, no espírito deste homem extraordinário que foi o P. Isidoro, começa a germinar a ideia de se construir um novo Convento em Portugal, destinado ao Noviciado. O P. Isidoro, um homem arrojado e um religioso de grande espiritualidade, não recuou perante a ingente empresa que lhe bulia na mente e no coração. Ele via que o Noviciado era necessário e sonhava inaugurá-‑lo nos seus dias. Era um sonho que se deveria tornar realidade. Não se atemorizou perante críticas irónicas de quem o apelidava de “aventureiro”. Não se acobardou perante as zombarias e a galhofa dos descontentes, que julgavam desnecessária uma obra tão grande. Grande, porém, era o seu desejo de servir Deus e a Ordem carmelita. E sem dar ouvidos aos prudentes deste mundo, lançou-se no vazio, confiando mais em Deus do que nos homens, mais na Divina Providência do que nas criaturas.

Do seu lado estavam as Terceiras Carmelitas, a quem a sua ideia já tinha entusiasmado de forma contagiosa e laboriosa. Um outro grande motor desta empresa foram as Irmãs Carmelitas Descalças. Estas fiéis filhas de Santa Teresa de Jesus, vibraram em uníssono com o P. Isidoro e puseram mãos à obra na colaboração e divulgação deste projecto do futuro Noviciado da Ordem.

O terreno

No Carmelo do Coração Imaculado de Maria, do Porto, residia a Ir. Maria de Jesus de Santa Teresa (Maria Inês de Mello da Silva da Fonseca de Sampaio). Filha de D. Miguel de Mello Vaz de Sampaio e de Maria dos Prazeres da Silva da Fonseca e Bourbon de Menezes Cyrne. De nobres famílias portuguesas, nasceu na Invicta cidade do Porto, na freguesia de Cedofeita, no dia 30 de Dezembro de 1901. Esta religiosa exemplar, que por sua vez tinha sido fundadora do Carmelo do Porto, onde empregou uma grande quantidade dos muitos bens herdados de seus pais, foi um dos principais elementos que o Céu utilizou para realizar o sonho do P. Isidoro. Ela fez aos Padres Carmelitas Descalços a doação da chamada «Quinta da Moria» para que, em 1960, aí se começasse a construir o tão desejado Convento para o Noviciado.

O projecto

O Padre Isidoro mandou que o Padre Romão de Jesus Crucificado estudasse o projecto e fizesse uma planta segundo a ideia que ele tinha da obra que desejava realizar. Seguindo estas indicações planeou-se um edifício com dois corpos iguais, tendo no meio a igreja, que serviria conjuntamente o Noviciado e a Comunidade. Cada corpo do edifício teria uma saída independente para o exterior e um claustro também independente. Esta planta não era comum nas construções da Ordem, por isso temia-se que a sua aprovação não fosse aceite pelo Governo Geral da Ordem, em Roma. Para espanto nosso, a verdade é que foi aprovada e apreciada.

A propriedade doada pelas Madres Carmelitas do Porto, na pessoa da Irmã Maria de Jesus, é muito acidentada e montanhosa. Foi preciso escolher a parte mais nivelada, que era a mais próxima do pequeno “solar” e residência dos antigos proprietários. Aqui a propriedade está dividida pela estrada que liga Entre-os-Rios a Marco de Canaveses.

Escolhido o local, fizeram-se as medições necessárias, marcaram-se as quotas e puseram-se as estacas que iriam enquadrar o edifício.

A obra foi colocada sob a protecção do Menino Jesus de Praga, pois era a Ele que se dedicaria a igreja do novo Convento.

A primeira pedra

A colocação e bênção da primeira pedra ocorreu no dia 19 de Abril, o dia em que fazia anos o Padre Isidoro, indiscutível alma e promotor desta grandiosa empresa.

Com a presença de vários Religiosos Carmelitas descalços e alguns benfeitores, a primeira pedra colocou-se sobre um grande bloco de granito, que fazia parte dos alicerces. Ficou num dos ângulos do edifício, o mais próximo do pequeno “solar”, por ser o lugar mais alto e onde mais sobressaíam os alicerces. Debaixo desta simbólica primeira pedra, foram colocadas 23 rosas enviadas pelas Madres Carmelitas do Porto, representando cada uma das Irmãs na cerimónia. Em cima desta primeira pedra, e dentro de um nicho que se preparou para esse fim, colocou-se uma pequena e linda imagem do Menino Jesus de Praga, oferecida por D. Rosalina Meneses.

Nesta cerimónia da bênção solene do que ia começar a nascer, o Padre Isidoro pronunciou uma emocionante e bela alocução para se referir a este facto histórico que cumulava todas as suas aspirações e ilusões. Pensava no futuro, que já via próximo e real. O primeiro passo estava dado. Agora teríamos de esperar os seguintes: a inauguração e a chegada dos primeiros noviços.

Colocada a primeira pedra, as obras iam continuar a passos largos e sem interrupção até ao fim. Dos primeiros 30 operários que começaram a trabalhar passou-se para 70 (em Maio), para 90 (em Junho) e para 100 (em Julho). O trabalho daqueles homens constituía uma cena musical alucinante; uma música produzida pelo tilintar dos cinzéis sobre o granito. Aquele pedacito de terra à beira do caminho, repleto de pedreiros a suar por todos os poros, parecia uma colmeia com um enxame de laboriosas abelhas a preparar um monumento para honrar o Deus Menino.

Trabalhava-se depressa e com entusiasmo. Não havia receio ou dúvidas, pois sabia-se que o grande Supervisor era a Divina Providência.

Era necessário acompanhar de perto os trabalhos e levar o dinheiro para pagar os salários ao fim de semana. O Padre Romão encarregava-se de repor o material necessário, indo às respectivas fábricas e armazéns para o conseguir mais barato.

Este foi o nosso trabalho até ao dia da inauguração.

A execução

O primeiro trabalho que o Padre Isidoro encomendou ao Padre Romão foi, como disse, o estudo e a realização do projecto do Noviciado.

O Sr. Engenheiro Brito fez alguns retoques técnicos ao projecto e acompanhou a obra até ao fim. A execução da obra ficou a cargo do Sr. António Passos, Construtor Civil da Meadela (Viana do Castelo), tendo como encarregados da mesma o Sr. Gigante, da Meadela, e o Sr. Monteiro (irmão do Padre Raul). Nos trabalhos de electrificação colaborou o Padre Ismael, vindo de Espanha para esse fim. A decoração e pintura da Igreja ficaram a cargo do Padre Mauro. O custo do projecto foi calculado em cinco milhões de escudos. A execução da obra fez-se por administração directa, tendo como gestores o Padre Isidoro e o Padre Romão. Os trabalhos começaram no dia 11 de Abril de 1960. Era uma segunda-feira. Os primeiros operários foram recrutados entre as próprias pessoas de Avessadas. Apenas se conseguiram trinta homens, pois não havia na altura falta de trabalho na região.

A pedra foi toda extraída das famosas pedreiras de Alpendorada. A pedra em bruto utilizada nos alicerces custava 120 escudos o metro cúbico. A das paredes, um pouco trabalhada, custava 150 escudos o metro cúbico. As cantarias que se empregaram nas janelas, portas, varandas, colunas, pináculos, etc., tinham os preços conforme as peças de que se tratasse: 250, 450, 600 e mil escudos o metro cúbico. Todos os materiais: tijolos, telhas, cimento, madeiras, ferro, etc., iam-se comprando à medida que a obra avançava e eram pagos com as esmolas que se iam recolhendo dia a dia. O pagamento do primeiro salário aos trinta operários fez-se no dia 16 de Abril. Poderíamos dizer que esta foi uma obra feita de esmolas. Embora com a possibilidade cair na ingratidão por deixar alguém sem nomeação, é justo e edificante que se faça constar os principais donativos para a construção do Convento: a) Os Carmelos de Portugal, com destaque para o Carmelo do Porto e do Crato; b) As Terceiras Carmelitas, a nível pessoal e através da campanha “Vocações carmelitanas”, foram o braço poderoso da Divina Providência, que nunca nos havia de abandonar; c) Um Carmelo da Bélgica, por razões de gratidão para com o Padre Isidoro, entregou uma boa quantia de dinheiro para a construção do Noviciado e uma custódia de ourivesaria fina para o culto Eucarístico do Santuário; d) O Sr. Anselmo Lopes, conhecido e amigo dos Carmelitas de Aveiro; e) O Irmão Manuel Gonçalves, Terceiro Carmelita, viúvo, que ao entardecer da sua vida professou na Ordem como Irmão Leigo. Vendeu tudo o que tinha e ofereceu-o para ajudar à construção; f) O Padre Romão contribuiu com a sua perna partida, pois os 90.000 escudos que o Tribunal de Viana do Castelo lhe entregou como indemnização dos que o atropelaram, foram para pagar as facturas e os salários do mês de Julho de 1961; g) Finalmente, o povo anónimo e pobre, que aprendeu a pôr na mesa um prato de sopa a mais para quem possa chegar sem avisar.

O Nome

Se a razão da obra era a construção de um Noviciado para a Ordem, porquê intitulá-la de Santuário Nacional do Menino Jesus de Praga? Também para isto há uma explicação.

Quando trabalhava na construção do Seminário do Carmo, em Viana do Castelo, o Padre Romão partiu uma perna. Em consequência deste acidente esteve internado durante mais de um ano no Hospital de Santa Maria no Porto. Este Hospital era dirigido por uma comunidade de Religiosas Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora (de Calais). Entre elas havia uma tal Irmã Rita, muito devota do Menino Jesus de Praga. Um dos quartos mais visitados pela Irmã era o do Padre Romão, com quem tinha longas conversas sobre esta devoção. Numa dessas conversas surgiu a ideia de que o Padre Romão se encomendasse ao Menino Jesus para alcançar a cura da sua perna, pois os meses iam passando e, tanto os médicos como o Padre Isidoro, começavam a temer o pior. Os médicos, ao ver que os antibióticos não faziam efeito temiam a formação de uma gangrena generalizada, com um desenlace fatal. A perna converteu-se numa fonte de pus e os ossos das quatro fracturas do fémur não se podiam unir nem consolidar. A infecção podia alastrar-se a todo o corpo.

Nestas circunstâncias, e dando seguimento à recomendação da Ir. Rita, o Padre Isidoro prometeu ao Menino Jesus de Praga que, se o doente saísse do Hospital e pudesse voltar a trabalhar como antes, o Noviciado que pensava construir seria dedicado ao Seu Nome. A Igreja deste novo Convento seria um Trono Nacional da Divina Infância. Na verdade, o Padre Romão, embora coxo, ao fim de dezasseis meses abandonou o hospital de Santa Maria e ficou a trabalhar como antes, e o Padre Isidoro não fez mais do que cumprir a promessa. Daí o nome de Santuário do Menino Jesus de Praga.

A inauguração

Após dezanove meses do começo das obras, chegou o dia da inauguração. No dia 22 de Outubro de 1961 inaugura-se este novo Noviciado da Ordem e Santuário do Menino Jesus de Praga. Foi um dia grande na história dos Carmelitas Descalços em Portugal. Grande pela solene cerimónia que ali se ia celebrar, e grande pela ressonância que indubitavelmente iria ter através dos tempos.

O formigueiro começou na véspera com a chegada do Padre Geral, Anastácio Ballestrero (do Santíssimo Rosário) e o P. Hipólito da Sagrada Família, segundo Definidor Geral, provenientes de Roma. De Espanha, já tinham chegado o Provincial, Frei Gregório de Jesus Crucificado, o seu secretário, e todo o Definitório provincial. Estavam também presentes o Padre Isidoro, artífice abnegado da magna obra, o Padre Romão e todos os Superiores das Casas de Portugal. De Larrea (Espanha) vieram os noviços portugueses, acompanhados pelo Padre Ângelo da Santíssima Trindade, a fim de fazerem a sua profissão religiosa, na tarde do dia da inauguração.

No dia 22, logo muito cedinho, a pacífica região onde o novo convento se situa, começou a movimentar-se a ficar muito animada. Chegavam autocarros repletos de gente para a festa. Às nove e meia começou a cerimónia da bênção do templo, presidida pelo Administrador Apostólico do Porto, D. Florentino de Andrade e Silva. No exílio continuava o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes; daí a presença do Administrador Apostólico, que dirigiu à multidão uma palavra catequética sobre o significado da consagração de um templo. A santa missa foi cantada pelos seminaristas de Viana do Castelo.

Os actos mais solenes ocorreram da parte da tarde. Às duas horas abriram-se ao público as portas do Convento. Nuns breves momentos, as pessoas invadiram a igreja, os amplos claustros e todas as dependências desta magnífica construção. Ondas de pessoas subiam e desciam por todas as escadarias do edifício.

A cerimónia religiosa começava às quatro da tarde, mas às três já não se podia dar um passo na Igreja e no coro.

Às quatro horas em ponto, a comunidade e os Padres visitantes instalaram-se nos lugares que lhes estavam reservados no centro da Igreja. De imediato, o Padre Geral deu o Santo Hábito aos catorze novos noviços portugueses, os primeiros a tomar o hábito de Nossa Senhora do Carmo em Portugal. A seguir, os sete jovens que tinham terminado o seu ano de noviciado em Larrea emitiram os seus votos religiosos. Acto contínuo, o Exmo. Senhor D. Manuel dos Santos, Arcebispo de Mitilene, pregou um fervoroso sermão agradecendo à Ordem esta maravilhosa obra realizada em Portugal. Manifestou-se emocionado por tomar parte numa cerimónia em que os primeiros Carmelitas portugueses, depois da restauração, se consagravam a Deus na bendita terra portuguesa, e porque a cerimónia se realizava num templo consagrado ao Menino Jesus de Praga, onde grandes multidões haveriam de acorrer para implorar as bênçãos do Divino Reizinho.

 

| 2011-10-02 |

 

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