A Cinza, a limpeza e a roupa a condizer

Ainda guardo na memória as barrelas que a minha mãe fazia. O produto principal era a cinza e a água quente que iam penetrando na roupa até a deixar limpa e cheirosa. Na Páscoa tinha de estar tudo limpinho. Colchas e toalhas de linho revestiam a casa de elegância e perfume para receber a Cruz do Senhor. Os caminhos eram rapados e as paredes caiadas. Nada de ervas más nem sujidade. Cristo ressuscitado entra em nossa casa. As flores, o rosmaninho, a era, as páscoas e aleluias, entapetavam o chão até à porta principal onde a família e os amigos, avisados ao longe pelo tlim-tlim da campainha, estavam perfilados à roda da sala para beijar Nosso Senhor.

Espiritualmente o movimento de limpeza e preparação era idêntico. Depois de fechar o carnaval, logo no dia seguinte, íamos «às cinzas» que o senhor abade nos botava na cabeça enquanto sentenciava: «Lembra-te, ó homem, que és pó e que em pó te hás-de tornar». A cinza era posta na cabeça, mas o seu efeito espiritual branqueava a alma. Era a barrela do nosso interior: pensamentos, sentimentos, atitudes, juízos. Pela oração e penitência (jejum, abstinência, esmola…) íamos arredando o lixo, arrancando as «ervas más» que se tinham alojado no coração e branqueávamos-lhe as paredes para celebrar a Páscoa como a verdadeira festa da libertação e da alegria. Esta limpeza espiritual tinha o seu momento auge no «dia das confissões». Empurrados pelo exemplo do pai e da mãe, nós, os seis filhos, lá íamos ajoelhar humildemente diante do confessor para receber o veredicto final: «Eu te absolvo de todos os teus pecados. Vai em paz». Agora sim, tudo era mais belo. Quando há limpeza interior a beleza surge em todas as coisas e em todas as pessoas. Tudo está cheio de beleza. Tudo está cheio da graça de Deus. Cristo ressuscitado e glorioso resplandece em tudo e em todos. Dar um beijo na Cruz da Páscoa é dar um beijo no Cristo Belo e Glorioso.

E no dia da festa a roupa a condizer! Embora se estreasse alguma peça, a roupa estava limpinha e bem aparelhada. Revestir-se de Páscoa é, no dizer de S. Paulo, «revestir-se do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade» (Ef 4,24). Lavados e purificados pela água do batismo, «revestistes-vos de Cristo mediante a fé» (Gl 4, 27). As “vestes espirituais” deixam sinais na nossa alma e no nosso modo de agir. Portanto «como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, suportando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também. E, acima de tudo isto, revesti-vos do amor, que é o laço da perfeição» (Cl 3, 12-14).

Há dias fui ver um clássico do futebol. Vestia tudo a rigor, de acordo com as cores e a mística dos clubes. Agora eu pergunto-me: não haveremos nós, cristãos, de nos revestirmos com os trajes desta grande festa de Cristo ressuscitado? Nesta Páscoa, vamos vestir a rigor para que a mística do cristianismo se torne viva e resplandecente. «Felizes os que lavam as suas vestes, para terem direito à árvore da Vida e poderem entrar nas portas da cidade» (Apocalipse, 22, 14).

Uma santa e feliz Páscoa para todos.

P. Agostinho Leal, OCD

 

| 2012-04-01 |

 

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