Carta ao Menino Jesus



Meu Menino Jesus:

Ouvi, há alguns dias nas vésperas do Natal, um diálogo entre dois amigos, num café da cidade.

Um estava sentado à mesa mexendo a sua chávena fumegante; o outro, acabado de chegar, deu-lhe os bons dias e, repentinamente, pergunta-lhe:

– Já escreveste a carta ao Menino Jesus?

O amigo, displicentemente, responde:

– Não. Ele não lê as minhas cartas. Ele não me conhece…

Perante esta resposta retorquiu-lhe o primeiro:

– Ele não te conhece ou és tu que O não conheces!

Fiquei a pensar nisto e tive o pressentimento, meu Deus Menino, de que deves sentir-Te muito triste!

Muitos dos seres humanos têm por costume, na época natalícia, pedirem-Te muitas coisas, quase sempre materialmente interesseiras, ao mesmo tempo que esquecem de agradecer as grandes dádivas, os dons enormes, as incomensuráveis riquezas que lhes concedeste sem nunca as terem pedido!

– Esquecem o Teu poder, a Tua bondade, a Tua justiça, a Tua liberdade;

– Esquecem todo o universo com todas as suas maravilhas, os seus deslumbramentos, os seus enigmas;

– Esquecem que Os presentaste com o sol, o ar, a terra, a água e toda uma Natureza brilhante, bela, abundante, fecunda, repleta de todos os recursos para que fossem felizes;

– Esquecem a inteligência que Tu lhes atribuíste para que a utilizassem para o bem, para o belo, para a dignidade, para o Amor;

– Esquecem que nunca precisaram de pedir-Te uma flor porque Tu lhes colocaste, frente aos seus olhos, os mais policromos, encantadores e fascinantes jardins da Natureza;

– Esquecem que todos os outros animais lhes foram oferecidos e colocados ao seu serviço;

– Esquecem, por fim, o dom da vida, a maior das dádivas, para que com ela construíssem um hino de louvor cantado na magnificente passadeira que conduz ao infinito. Tantos homens que não Te conhecem ou, se Te conhecem, esquecem-Te.

Deves estar muito triste, meu Deus Menino!

Como renegam o Teu poder; desprezam a Tua bondade; deturpam a Tua justiça; ignoram a Tua liberdade; desafiam o universo; ferem a Natureza; transviam a inteligência; mancham a pureza; fazem dos animais coisas; matam a própria vida e estrangulam o Amor!

E eu, que sou um ser humano, com todas as fraquezas dos outros homens, acabo por pedir também à Tua Virgem Mãe, que nos leve no seu regaço até junto de Ti para que, num só gesto, num só afago, nos dês o Teu perdão!
Muito obrigado, meu Menino Jesus!
Virgílio Carneiro


VIRGÍLIO CARNEIRO
Vila Nova Famalicão, 76 anos
Poeta

 

| 2017-02-01 |

 

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