Mais do que escrever, gosto de olhar e pensar. Também dizem alguns que, em certas ocasiões, nunca mais me calo.
Por mera coincidência, e também por boa disposição, lembro aqui a pergunta do Rei de Espanha ao desbocado Presidente da Venezuela: “Por qué no te callas”? Mas também lembro um político da nossa praça, repetido por um meu amigo e colega: “A mim ninguém me cala”!
Falar e calar-se, ou melhor, calar-se e falar. As duas coisas são necessárias. Mas, antes de falar, é sábio calar-se. Primeiro ouvir, e depois falar. Primeiro o silêncio, depois a palavra. Aliás, é esta ciência que se cultiva na oração: «Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo» (Ap 3, 20).
Por acaso, e por graça de Deus, ainda convivi e fui instruído por pessoas que não sabiam ler nem escrever. Porém, sabiam escutar e falar. Não tinham escrita, mas tinham palavra honrada. Algumas zaragatas surgidas, ou ajuste de contas, tinham, na maior parte das vezes, a origem na “falta de palavra”. Sim, porque a palavra dada valia mais do que uma escritura!
Claro! Isso era antigamente. E porque não agora? Talvez seja mais difícil, porque nos habituamos à “honra” da mentira, à gargalhada das promessas eleitorais, a rasgar cartas, documentos e conclusões de reuniões e congressos sem as ler... Mas, acaso a palavra tem alguma culpa? Não. Culpa tem quem a desonrou; quem a usa para se ocultar, e não para se revelar; quem tem letra a mais e palavra a menos.
Em Dezembro passado, à beira da estrada, a poucos metros de uma das margens do rio Mondego, lá para as bandas de Carregal do Sal, deparou-se-me a imagem que a capa deste Mensageiro reproduz. Achei-a eloquente. Então fiquei a olhar para ela e a pensar. A pensar que os cristãos também desonramos a Palavra de Deus. A Bíblia é mais manipulada e estudada do que rezada e escutada. Quantas vezes utilizamos o texto sagrado para condenar, ajuizar..., isto é, para fazer o contrário do que lá está escrito. Também temos culpa na desvalorização da Palavra, que é Cristo, porque, por vezes, «pregamos à frei Tomás».
O simbolismo deste fontanário também é rico e sugestivo para rezar. Da Sagrada Escritura sai uma água pura que, dia e noite, se oferece a qualquer sedento que dela se aproxima. Dela bebe o rico e o pobre, o santo e o pecador, o leão e o cordeiro, porque o amor de Deus, revelado na Sua Palavra, é para todos. Quem bebe de Jesus Cristo torna-se nascente para sempre a jorrar!
De joelhos diante da Palavra de Deus, recordo a promessa de Ezequiel: «Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados» (Ez 36.25), faço a mesma prece da samaritana: «Senhor, dá-me dessa água...» (Jo 4, 15) e canto o poema de S. João da Cruz: «Bem eu sei a fonte que mana e corre».
E, como de água se tratava, deixei no coração do Pai esta prece: Deus, nosso Pai, aprofundai o meu coração na nascente de Cristo, que é a vossa Palavra, para que não seja um cristão a vender por aqui água sem caneco, mas um fontanário dessa água viva que nos é dada para não mais voltarmos a ter sede (cf. Jo 4, 14).
| 2008-01-01 |
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