É verdade. Foi propositadamente que coloquei à frente da palavra “padres” um ponto de admiração e outro de interrogação. O ponto de admiração está a dizer que eu, em primeiro lugar, admiro os padres. E admiro-os porque também o sou “por graça de Deus”. Em segundo lugar, coloco o ponto de interrogação porque “ser padre” é uma questão sempre em aberto. Admiração e interrogação são as “canadianas” em que me amparo para continuar à procura de Deus e para O servir. Admiração por aquilo que vejo e experimento de mais extraordinário e edificante, e interrogação para tentar compreender o que, por vezes, é ordinário e desedificante. Admiro o padre porque é sempre um escolhido e um eleito (sem votos nem partidos) para causas únicas, nobres e difíceis. Interrogo-me sobre o padre porque também é frágil e de barro. Não posso deixar de transcrever a propósito uma definição sobre o sacerdócio que pronunciou a escritora Agustina Bessa Luís: «O sacerdócio é hoje, mais do que nunca, uma forma de sabedoria que está acima da sabedoria. As pessoas vivem angustiadas com tantos prazeres de que são informadas e muitos crimes que são justificados por uma humanidade inteligente. Parece que a inteligência deu um fruto malicioso que a todos envenena, mais do que alimenta. Ser sacerdote, perante o afã de felicidade que se traduz pelo consumismo e o sucesso, é uma difícil causa» (Revista Atrium, nº 12, Ano VI, 1992, pp. 48-49).
Também dou o título de “padres” a este meu editorial porque recebi com muita alegria e satisfação a notícia do Ano Sacerdotal. “Este ano seja também ocasião para um período de intenso aprofundamento da identidade sacerdotal, da teologia do sacerdócio católico e do sentido extraordinário da vocação e da missão dos sacerdotes na Igreja e na sociedade” (Cardeal Dom Cláudio Hummes).
Justifico ainda este título porque acabo de me despedir de dois “felizes, santos e alegres” sacerdotes que partiram para a eternidade. Primeiro foi o Padre Pereira, meu confrade e irmão de Comunidade; depois, foi o Padre Aguiar. Tanto de um como de outro fico com a recordação de dois homens que acreditavam no que faziam, e se faziam era porque acreditavam; dois sacerdotes dedicados, generosos até ao sacrifício; trabalhadores e alegres; sem malícia nem ambiguidades. Verdadeiramente eles eram “felizes, santos e alegres”.
Quero prestar aqui a minha homenagem a um grupo de padres que muito estimo: aqueles que, contra ventos e marés, fizeram as suas bodas de prata e de ouro. E grande parte deles ainda nos serviços paroquiais. Ah! grandes padres. Ah! grandes homens!
Por fim uma linda e triste história: Numa determinada casa, em tarde soalheira, estavam a avó, o neto e a empregada. Por sinal a empregada até era toda da Igreja. Diz a avó: “Ai quem me dera que este meu neto fosse para padre”. A criada atalhou imediatamente: “Credo in cruz, minha senhora, deseje-lhe melhor sorte”.
Só me resta espaço para confessar quão contente estou com a minha sorte e que, enquanto eu entender porque é que o sou, não me aflige que outros o não entendam ou combatam. Agora fico à espera que alguém me adopte, isto é, que reze especialmente por mim durante este ano.
| 2009-08-01 |
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